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Picanha para o Povo, Vinho para Poucos? O Paradoxo do Brasil

Picanha e vinho no Brasil fazem parte das celebrações, mas há um paradoxo difícil de ignorar: como a carne nobre se tornou um símbolo popular, enquanto o vinho continua cercado por um estigma elitista? Se ambos fazem parte da nossa gastronomia, por que tratamos um como um patrimônio do povo e o outro como um luxo reservado a poucos? 

Esse questionamento ganha ainda mais força, com o avanço do Projeto de Lei 3.594/2023 no Senado, que propõe classificar o vinho como “alimento natural”, assim como ocorre na Espanha e em outros países europeus. Se o Senado aprovar essa proposta, ela pode significar um grande avanço na democratização do vinho no Brasil, tornando-o mais acessível e rompendo com sua imagem de exclusividade.

O paradoxo é evidente: gastamos sem hesitar em cortes nobres de carne para o churrasco, mas quando se trata de vinho, a escolha se torna mais hesitante. Não se trata apenas de preço, mas de como a cultura do vinho moldou-se no Brasil, alimentando crenças que influenciam desde a escolha até a apreciação.

Se a picanha conquistou seu espaço, como orgulho gastronômico nacional, por que o vinho – que é produzido com excelência em diversas partes do mundo, incluindo o Brasil – ainda não desfruta do mesmo reconhecimento? Está na hora de rever essa percepção e entender por que tratamos o vinho como um artigo de elite em um país que celebra outros produtos igualmente custosos como símbolos culturais.

Índice:

Vinho: Alimento ou Artigo de Luxo? A Nova Proposta na Legislação Brasileira.
O Vinho como Alimento e Produto de Proximidade
O Vinho como Produto de Proximidade: Lições da Espanha
O Paradoxo Brasileiro: Entre o Luxo da Picanha e o Preconceito com o Vinho
A Mudança de Mentalidade: Vinho é Cultura, Não um Símbolo de Status
Perguntas Frequentes Sobre Vinho no Brasil

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Vinho: Alimento ou Artigo de Luxo? A Nova Proposta na Legislação Brasileira.

Recentemente, o Senado brasileiro iniciou discussões sobre uma mudança que pode redefinir a forma como o vinho no Brasil é percebido. O Projeto de Lei 3.594/2023 propõe que o vinho seja classificado como “alimento natural”, uma abordagem já adotada por países como Espanha, França e Itália. Mas o que essa mudança realmente significa?

Se aprovado, o projeto pode transformar o vinho de um produto altamente taxado para um item alimentar essencial, como azeite e café.(para compreender melhor o mercado atual de vinhos brasileiros e as implicações de mudanças legislativas, confira mais sobre o mercado dos vinhos brasileiros este artigo detalhado.  Essa mudança não se limita aos impostos, mas também ao impacto cultural significativo, ajudando a normalizar o consumo de vinho no dia a dia. A reclassificação não visa apenas reduzir tributos, mas também democratizar o vinho, permitindo que as pessoas o vejam como uma bebida cotidiana e acessível, em vez de um artigo de ostentação.

Atualmente o preconceito com o vinho ainda persiste, reforçado por uma longa história de tributação excessiva e e pela ideia de que ele pertence apenas a um círculo exclusivo. Será que faz sentido manter essa mentalidade em um país que consome picanha e vinho em churrascos e celebrações? Se o vinho fosse encarado com a mesma naturalidade que a carne nobre dos brasileiros, essa mudança legislativa poderia ser o primeiro passo para uma transformação cultural.

O ponto central da discussão é: se a picanha já foi incorporada ao imaginário nacional como um produto de prestígio, mas acessível, por que o vinho segue sendo tratado como um artigo elitista? Talvez seja hora de reconsiderarmos o que realmente define um símbolo de identidade nacional.

O Vinho como Alimento e Produto de Proximidade

O hábito do vinho, de um produto de luxo para item cotidiano, já é realidade em diversos países da Europa, onde as garrafas são adquiridas se misturando naturalmente nas cestas de compras junto ao pão e às verduras. Essa naturalidade no consumo, não vem apenas dos hábitos centenários, mas também de uma legislação que reconhece o vinho como alimento, sendo consumido com simplicidade, sem o peso do elitismo.

Enquanto o Brasil ainda debate essa classificação, países como a Espanha já colhem os frutos de uma cultura do vinho mais acessível, provando que é possível desmistificar o consumo do vinho sem perder sua essência cultural. Esse processo tem ajudado a consolidar o vinho como um elemento da vida cotidiana, um complemento da alimentação, e não apenas um artigo de luxo.

No livro O Despertar do Vinho, aprofundei essa reflexão ao observar como, na Europa, o vinho faz parte do dia a dia, enquanto no Brasil ele ainda é tratado com um misto de fascínio e desconfiança. Ou seja, a relação cultural com o vinho é bem distinta entre os dois continentes.

“Mesmo morando na Europa há mais de seis anos, não tenho a mesma facilidade de encontrar a mesma diversidade de vinhos que temos no Brasil. Parece contraditório, mas a razão é simples: o vinho por aqui é um produto alimentício.” (O Despertar do Vinho)

Conheça o Livro.

O Vinho como Produto de Proximidade: Lições da Espanha

 

Na Espanha por exemplo, a Ley de la Viña y del Vino classifica o vinho como alimento, o que influencia não apenas os preços, mas também a forma como as pessoas o encaram.

Não há esnobismo, não há um ritual exagerado para consumi-lo. Há, simplesmente, o hábito.

Por outro lado, isso contrasta fortemente com o Brasil, onde qualquer menção a vinho fino pode rapidamente ser associada à ostentação. Mas qual a lógica disso, quando nos gabamos de pagar caro por uma picanha para o churrasco de domingo?

Quando morei por cinco anos em Barcelona, ficou claro para mim: os europeus vivem o vinho de forma simples e natural, como qualquer outro alimento. Lá, consomem o que é da sua terra, sejam verduras, frutas, embutidos ou queijos – e, com o vinho, não seria diferente. Isso acontece porque, historicamente, o vinho foi produzido para atender à gastronomia local, respeitando os ingredientes e costumes de cada região. Esse conceito de “produto de proximidade”, faz parte da tradição alimentar e é um dos fatores que tornam o vinho, algo tão natural no cotidiano europeu.

Escrevendo sobre a Espanha, recordei-me de quando estive no 1°Museu do vinho da Espanha, vou deixar o link AQUI, para você ler depois.

Se olharmos para o Brasil, já estamos vivendo uma revolução gastronômica. Com diversas regiões vinícolas emergindo com vinhos que dialogam com os sabores locais, assim como ocorre na Europa. O acesso a diferentes rótulos, nacionais e internacionais, nunca foi tão amplo. Mas, para que essa mudança cultural se consolide de fato, é preciso que as pessoas vejam o vinho pelo que ele realmente é: um alimento, um complemento gastronômico, e não um artigo de status.

 

O Paradoxo Brasileiro: Entre o Luxo da Picanha e o Preconceito com o Vinho

O Brasil tem uma relação ambígua com o luxo. Enquanto o churrasco de picanha é celebrado como um evento democrático, o vinho ainda enfrenta barreiras culturais. Mas, será que essa distinção faz sentido?

Pagamos caro por cortes nobres e nos orgulhamos disso. Exibimos pratos bem servidos, mostramos conhecimento sobre carnes e acompanhamentos, e as pessoas veem isso como um reflexo da identidade nacional. Mas quando o assunto é vinho, a percepção muda

As pessoas ainda veem o vinho como algo inacessível ou esnobe, quando, na realidade, ele deveria ocupar o mesmo espaço de valorização cultural da picanha.

Décadas de tributação excessiva e uma abordagem de marketing reforçaram esse distanciamento, colocando o vinho em um pedestal inatingível. No entanto, a verdadeira essência do vinho não é o status, mas sim a experiência e o compartilhamento. Se conseguimos tornar a picanha um símbolo acessível de celebração, por que não podemos fazer o mesmo com o vinho?

A Mudança de Mentalidade: Vinho é Cultura, Não um Símbolo de Status

Se a picanha já se tornou um símbolo do Brasil – mesmo sendo cara – por que o vinho ainda é tratado como algo distante, elitista e reservado para ocasiões especiais? Por que um corte nobre de carne pode ser popular e um bom vinho de qualidade não?

A resposta está na forma como absorvemos o conhecimento sobre vinhos. Criamos uma barreira desnecessária e fazemos do vinho algo que exige um manual, uma cerimônia e um cenário perfeito para ser apreciado. Mas essa lógica nunca existiu nos países onde o vinho faz parte da rotina.

A mudança de mentalidade passa por:

  • Quebrar o esnobismo → Vinho não precisa ser complicado, é possível aprender e aproveitar sem parecer pedante.
  • Educação e acessibilidade → Há bons vinhos para todos os bolsos e momentos, é só saber procurar.
  • Enxergar o vinho como um elo social → Algo para compartilhar, explorar e incluir no dia a dia – sem frescura, sem misticismo.

Essa transformação não depende apenas de leis ou preços, mas de como decidimos enxergar o vinho. Assim como aprendemos a celebrar a picanha, podemos construir uma relação com o vinho que seja natural e livre de preconceitos.

Nos anos em que morei na Europa, vi na prática como o vinho era algo simples e cotidiano, tratado com naturalidade. Não existia esse medo de errar, essa preocupação excessiva com regras e rituais. O vinho era um complemento da refeição, como o pão ou o azeite.

“Apesar de todo esse conhecimento técnico, nunca tive uma admiração servil pelo consumo dos vinhos, e foi com os europeus que entendi o que realmente é esse produto alimentício, sua simplicidade e o prazer que os vinhos proporcionam no cotidiano europeu. Minhas andanças pelo velho continente me mostravam como era simples, quase vulgar e ao mesmo tempo interessante adquirir conhecimento em viagens e mesas regadas com vinhos. Acho que assim descobri como os vinhos e as viagens serviram de grandes estímulos para o desenvolvimento das mais diversas civilizações.” (O Despertar do Vinho, p. 21)

O vinho não precisa de um pedestal. Ele precisa de um lugar na mesa.

A picanha conquistou seu lugar na cultura brasileira. O vinho merece o mesmo reconhecimento. Está na hora de quebrarmos esse ciclo e darmos ao vinho o espaço que ele sempre deveria ter tido na nossa mesa.

Perguntas Frequentes:

Com a recente discussão, sobre a classificação do vinho como alimento, muitas dúvidas surgem sobre o impacto dessa mudança na cultura, tributação e consumo da bebida no país. Abaixo, esclarecemos algumas das principais questões sobre o tema.

Qual é a nova classificação do vinho no Brasil?

O Brasil está discutindo uma mudança na forma de classificar o vinho. O Projeto de Lei 3.594/2023 propõe reconhecer o vinho como um ‘alimento natural’, seguindo exemplos de países como Espanha, França e Itália, que tratam o vinho não apenas como uma bebida alcoólica, mas como parte da cultura alimentar.

Se aprovada, essa reclassificação, pode reduzir tributações e tornar o vinho mais acessível ao consumidor brasileiro, ajudando a desconstruir a ideia de que ele é um artigo de luxo reservado para ocasiões especiais.

Mas o impacto vai além dos impostos: essa mudança pode transformar a percepção do vinho no Brasil, aproximando-o do conceito europeu de consumo equilibrado e natural. Se já tratamos café, azeite e pão como itens cotidianos, por que não fazer o mesmo com o vinho?

Por que o vinho é considerado alimento em outros países?

Nos principais países produtores de vinho, como França, Itália e Espanha, a bebida faz parte da alimentação há séculos. Mas essa classificação não se deve apenas à tradição: a legislação desses países reconhece o vinho como um produto agrícola e alimentício, e não apenas como uma bebida alcoólica.

Isso significa que o vinho é visto da mesma forma que outros alimentos fermentados, como pão e queijo. Além disso, quando consumido com moderação, o vinho traz benefícios à saúde, como melhora da circulação sanguínea e ação antioxidante – reforçando sua presença na dieta cotidiana (o que abordo aqui com cautela, pois tenho alguns capítulos no livro O Despertar do Vinho dedicados ao tema vinho e saúde).

Enquanto na Europa ele ocupa as prateleiras ao lado de produtos essenciais, no Brasil ainda existe uma distância cultural em relação ao vinho. A mudança na legislação pode ajudar a reduzir essa barreira, tornando seu consumo mais natural e acessível, assim como ocorreu com o café, que se consolidou como um símbolo nacional.

Como a mudança na legislação pode afetar o preço do vinho?

A reclassificação do vinho como alimento natural pode ter um impacto direto nos preços, tornando-o mais acessível ao consumidor brasileiro.

Hoje, o Brasil tributa fortemente o vinho, o que faz com que, muitas vezes, um rótulo nacional custe mais caro do que um importado. Com a nova classificação, ele poderá se beneficiar de uma tributação reduzida, semelhante à aplicada a outros produtos da alimentação.

Mas há também um impacto psicológico e cultural: ao deixar de ser tratado como um artigo de luxo, o vinho pode finalmente entrar na rotina dos brasileiros, sem a necessidade de ser visto como um item reservado para ocasiões especiais. Conheça mais sobre os benefícios do vinho e veja como incorporá-lo ao seu cotidiano, descubra o resveratrol, um poderoso antioxidante presente na bebida.

Se essa mudança acontecer, podemos ver um mercado interno mais aquecido, com consumidores mais confiantes e maior valorização dos produtos disponíveis. Assim como o churrasco do fim de semana se tornou um ritual coletivo, o vinho pode se tornar um elemento de conexão e prazer, sem barreiras elitistas.

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