Da Colômbia à Coffees 2026, em Vitória, uma viagem pelos aromas, sabores e histórias que revelam a diversidade dos cafés especiais do Espírito Santo.
Recentemente, estive em Bogotá, na Colômbia, onde participei de uma experiência e de um pequeno curso sobre cafés especiais no Café Jaguar. Entre aromas, métodos de preparo e degustações, voltei a perceber como uma bebida pode revelar tanto sobre a cultura de um país. Os colombianos têm uma relação muito especial com o café, que se tornou parte de sua identidade e de sua maneira de se apresentar ao mundo.
Mas, ao visitar a Coffees 2026, em Vitória, uma provocação me veio à cabeça: será que o mundo já conhece o capixaba tomando café?
Sou capixaba, sommelière e apaixonada pelas histórias que encontramos ao redor de uma boa bebida. Depois de tantas experiências com vinhos e gastronomia em diferentes países, visitar uma feira dedicada ao café no meu próprio estado me pareceu uma excelente oportunidade para descobrir o quanto ainda temos a conhecer sobre aquilo que produzimos tão perto de casa.
E saí de lá com uma certeza: o café capixaba tem qualidade, diversidade e histórias que merecem ser conhecidas muito além das nossas fronteiras.
Café capixaba: por que o Espírito Santo se destaca na produção de café?
O Espírito Santo é o segundo maior produtor de café do Brasil e o principal produtor nacional de café conilon. Mas esses números, por mais expressivos que sejam, contam apenas uma parte da história.
Durante muito tempo, o café conilon foi associado principalmente à produtividade e à composição de misturas comerciais. Hoje, o avanço das pesquisas, das técnicas de cultivo, da seleção dos grãos e dos cuidados na colheita e no processamento vem ampliando o reconhecimento de sua qualidade.
E há outra característica que torna o Espírito Santo especialmente interessante: aqui encontramos tanto o café conilon, cultivado principalmente em regiões mais quentes e de menor altitude, quanto o café arábica, presente sobretudo nas áreas serranas e no Caparaó.
São espécies com características distintas, cultivadas em diferentes condições de solo, clima e altitude. Essa diversidade permite produzir cafés com perfis sensoriais variados, capazes de surpreender até quem acredita já conhecer bem a bebida.
Na Coffees 2026, encontrei produtores, baristas e profissionais que trabalham justamente para valorizar essa riqueza. Mais do que apresentar produtos, eles compartilhavam conhecimento, experiências e diferentes maneiras de apreciar o café.
Segundo o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), a cafeicultura tem grande importância econômica e social para o Espírito Santo, com destaque para o conilon e para a produção de arábica nas regiões montanhosas.
E foi então que resolvi fazer uma pergunta.
Qual café especial representa o Espírito Santo?
Durante a feira, conversei com diferentes baristas e fiz a todos uma pergunta aparentemente simples:
“Se você fosse me indicar um café que representasse o Espírito Santo, qual seria?”
Eu imaginava que receberia indicações de determinados grãos, regiões ou produtores. Mas a resposta que mais se repetiu foi outra: a diversidade do nosso terroir é justamente o que torna o café capixaba tão especial.
Em vez de um único perfil que pudesse representar todo o estado, encontrei profissionais falando sobre diferentes aromas, intensidades, métodos de produção e experiências sensoriais.
Achei essa resposta fascinante.
Talvez porque ela também diga muito sobre o Brasil. Somos um país de paisagens, culturas e tradições diversas, e o Espírito Santo reúne, em um território relativamente pequeno, condições capazes de produzir cafés com características bastante distintas.
Foi interessante perceber que, enquanto eu procurava um café que representasse nossa identidade, os profissionais me convidavam a reconhecer justamente a pluralidade dessa identidade.
E isso me levou imediatamente ao universo do vinho.
O que é terroir do café e o que ele tem em comum com o vinho?
Quem acompanha meu trabalho sabe que gosto de falar sobre terroir, uma palavra francesa muito utilizada no mundo do vinho.
De maneira simples, terroir é a combinação de fatores naturais e humanos que influencia as características de um produto. Solo, clima, altitude, variedade cultivada e decisões de produção participam dessa identidade.
No vinho, costumamos observar como uma mesma uva pode apresentar características diferentes quando cultivada em regiões distintas. No café, acontece algo semelhante.
Um café produzido nas montanhas capixabas pode apresentar características muito diferentes de outro cultivado em regiões mais quentes. Além disso, a escolha do ponto de colheita, a fermentação, a secagem e a torra influenciam diretamente os aromas e sabores que encontramos na xícara.
É por isso que dois cafés da mesma espécie podem oferecer experiências tão distintas.
Na Coffees 2026, conheci exemplos de cafés lavados, diferentes processos de produção e iniciativas que valorizam a sustentabilidade, incluindo sistemas agroflorestais.
Essas descobertas reforçaram algo que aprendi ao longo das minhas viagens por regiões produtoras de vinho: conhecer a origem de uma bebida muda nossa maneira de apreciá-la.
Quando sabemos quem produziu, onde produziu e quais escolhas foram feitas até aquele produto chegar à nossa mesa, começamos a perceber detalhes que antes poderiam passar despercebidos.
Café conilon especial: a qualidade que está transformando a imagem do café capixaba
Uma das descobertas mais interessantes para quem começa a explorar os cafés especiais do Espírito Santo é perceber a evolução do conilon.
O conilon pertence à espécie Coffea canephora, assim como outros grupos de cafés conhecidos internacionalmente como robustas. Durante muito tempo, a espécie foi associada a bebidas de maior intensidade, utilizadas principalmente em misturas e cafés solúveis.
Mas a qualidade de um café não depende apenas da espécie.
A seleção dos frutos maduros, o manejo da lavoura, os processos de pós-colheita e a torra podem transformar significativamente o resultado na xícara. Hoje, produtores capixabas demonstram que o conilon também pode oferecer bebidas especiais, com aromas, sabores e características próprias.
Essa evolução é importante porque amplia nossas possibilidades de escolha. Em vez de pensar que existe apenas um tipo de café bom, podemos aprender a reconhecer diferentes estilos e descobrir aqueles que mais agradam ao nosso paladar.
Na feira, essa diversidade aparecia tanto nas degustações quanto nas conversas com os profissionais.
E uma dessas conversas foi especialmente interessante.
Como preparar e degustar um café especial? A experiência com Mayonn Del Sant
Entre os profissionais que encontrei na Coffees 2026 estava Mayonn Del Sant, campeão nacional de AeroPress, com quem conversei sobre cafés especiais e sobre o que ele recomendaria para representar o Espírito Santo.
A AeroPress é um equipamento de preparo de café que utiliza infusão e pressão para extrair a bebida. Dependendo da moagem, da temperatura da água, da quantidade de café e do tempo de preparo, é possível explorar diferentes características do mesmo grão.
Para quem está acostumado a simplesmente colocar o pó no filtro e preparar o café de todos os dias, descobrir essas possibilidades pode ser surpreendente.
Mas não é necessário se tornar especialista ou comprar equipamentos sofisticados para começar a apreciar melhor um café.
Uma boa experiência de degustação pode começar com três atitudes muito simples: observar o aroma antes de beber, prestar atenção aos sabores e perceber o que permanece na boca depois de cada gole.
É interessante notar a acidez, o corpo, a intensidade e as sensações que a bebida provoca. Com um pouco de prática, começamos a reconhecer diferenças que antes pareciam difíceis de identificar.
Como sommelière, encontro aqui uma conexão muito próxima com a degustação de vinhos. Nas duas experiências, nossos sentidos oferecem informações que podemos aprender a interpretar.
E quanto mais desenvolvemos essa percepção, mais conscientes se tornam nossas escolhas.
Coffees 2026: uma experiência para descobrir a cultura do café no Espírito Santo
A Coffees 2026 reuniu em Vitória produtores, torrefadores, cafeterias, baristas e apreciadores interessados em conhecer melhor a cultura do café.
Durante minha visita, encontrei demonstrações de preparo, degustações, conversas sobre sustentabilidade, diferentes métodos de produção e até drinks elaborados com café.
O que mais me interessou, entretanto, foi a oportunidade de ouvir as pessoas que trabalham diariamente com essa bebida.
Cada conversa revelava um detalhe diferente. Um produtor explicava suas escolhas, um barista apresentava um método de preparo e outro profissional compartilhava sua maneira de identificar aromas e sabores.
Foi dessa experiência que nasceu o vídeo que preparei para o meu canal no YouTube.
Em vez de uma aula técnica ou de uma reportagem convencional, reuni algumas dessas conversas para mostrar o café capixaba através das pessoas que o conhecem e valorizam.
E, naturalmente, aproveitei para fazer perguntas com o olhar de quem passou tantos anos estudando vinhos.
Da Colômbia ao Espírito Santo: o que as viagens me ensinaram sobre apreciar uma bebida
Quando penso na experiência que vivi no Café Jaguar, em Bogotá, e nas conversas que tive na Coffees 2026, percebo algo em comum.
Em ambos os lugares, encontrei pessoas que dedicam seu trabalho a transformar um produto agrícola em uma experiência cultural.
Foi assim também em muitas das vinícolas que visitei ao longo dos anos. Cada região me ensinou que compreender uma bebida envolve conhecer seu território, suas tradições e as pessoas que participam de sua produção.
Essa curiosidade também está presente no meu livro O Despertar do Vinho, no qual compartilho conhecimentos sobre vinhos, técnicas de degustação, cultura e outras aventuras que vivi pelo mundo. Uma obra para quem deseja aprender sobre vinhos e ampliar seu repertório através das histórias, dos lugares e das pessoas que fazem parte desse universo.
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Um brinde ao café capixaba!
Voltei da Coffees 2026 com uma percepção ainda mais clara sobre a riqueza da cultura cafeeira do Espírito Santo.
Temos tradição, conhecimento, produtores comprometidos e uma diversidade de cafés que merece ser explorada. Mas talvez a descoberta mais interessante tenha sido perceber que não precisamos escolher um único café para representar tudo isso.
Nossa identidade também está na variedade de territórios, pessoas e experiências que encontramos pelo caminho.
E, depois de tantas viagens pelo mundo, foi especialmente prazeroso fazer essa descoberta tão perto de casa.
Um brinde ao café capixaba! E às histórias que ainda podemos descobrir em uma boa xícara.
Assista ao vídeo: Café Capixaba — O Que Torna o Café do Espírito Santo Tão Especial?
Agora quero convidar você a conhecer as pessoas e as histórias que encontrei nessa visita.
No vídeo, compartilho as conversas com os baristas, a experiência com Mayonn Del Sant, os diferentes métodos de preparo e as descobertas que me fizeram olhar para o café capixaba com ainda mais admiração.
Dê o play e venha descobrir comigo por que o café do Espírito Santo merece ser conhecido pelo mundo.
Melissa Leite
A arte de viver bem. Usando o vinho como linguagem.
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Uma oportunidade para começar o ano ampliando seu repertório, conhecendo vinhos e descobrindo novas maneiras de apreciar cada experiência.

