Por que você deixa os outros escolherem seus vinhos… e seus gostos?

Entre aplicativos, especialistas e boas intenções, a melhor escolha quase nunca começa pela garrafa. 

“Melissa, qual vinho você indica?”

Confesso que, durante muito tempo, achei que essa fosse justamente a minha função como sommelière. Afinal, quando alguém procura um especialista, espera uma resposta pronta. Espera ouvir o nome de um rótulo, de uma uva ou de uma vinícola e sair da loja com a tranquilidade de quem acredita ter feito “a escolha certa”.

Com o tempo aconteceu exatamente o contrário do que eu imaginava. Quanto mais estudei vinho, mais difícil ficou responder essa pergunta. Não porque me faltassem opções, mas porque descobri que minhas melhores indicações quase nunca começavam pela garrafa. Elas começavam quando eu entendia quem estaria ao redor daquela mesa.

Antes da garrafa, existem as pessoas.

Há poucos dias uma amiga me ligou pedindo ajuda para escolher um vinho de presente para um casal.

“Melissa, qual vinho você compraria?”

Em vez de responder, perguntei:

“Eles gostam de vinho e costumam conversar sobre ele?”

“Eles gostam de conhecer restaurantes e comer bem?”

“Eles são pessoas que gostam de mostrar o que compram ou preferem simplesmente aproveitar a vida sem precisar impressionar ninguém?”

Enquanto ela respondia, fui entendendo que já não estávamos falando de vinho. Estávamos falando de duas pessoas que eu sequer conhecia.

Escutar continua sendo mais importante do que responder. Porque conhecer quem vai receber uma garrafa é infinitamente mais interessante do que conhecer apenas a prateleira onde ela será escolhida.

Foi ouvindo aquela descrição que comecei, finalmente, a pensar no vinho.

Algumas garrafas carregam mais do que vinho. 

Naquela conversa lembrei imediatamente da Lídio Carraro. Não apenas pelo Chardonnay que eu pretendia indicar, mas porque a filosofia daquela vinícola dizia muito sobre o casal que minha amiga acabara de descrever.

Poderia ter sugerido um rótulo famoso, daqueles que quase todo mundo reconhece pelo nome. Também poderia ter recorrido a uma indicação internacional que dificilmente despertaria qualquer questionamento.

Mas nenhuma dessas escolhas combinava com aquele casal.

À medida que minha amiga descrevia aquele casal, fui me lembrando da filosofia da Lídio Carraro, uma vinícola que admiro justamente porque escolheu construir sua identidade sem seguir caminhos óbvios.

Em vez de produzir vinhos para impressionar rapidamente, optou por uma viticultura purista, acreditando que a melhor versão de um vinho aparece quando permitimos que a uva, o solo e a safra contem sua própria história, sem excessos que escondam sua identidade.

Essa filosofia sempre me chamou a atenção. Tanto que dediquei um trecho do meu livro O Despertar do Vinho para contar a história da Lídio Carraro e refletir sobre como sua forma de produzir vinhos nos convida a pensar também sobre autenticidade e escolhas. Se tiver curiosidade, você pode conhecer o livro clicando aqui

Antes de desligar, fiz apenas um pedido.

“Quando entregar a garrafa, não fale primeiro sobre o vinho. Conte por que escolheu esse vinho.”

Contei um pouco sobre a filosofia da vinícola e sugeri que ela dividisse essa história durante o jantar. Disse que aquele Chardonnay provavelmente acompanharia boa parte da refeição com elegância, mas que a verdadeira experiência começaria antes mesmo da primeira taça, quando aquela história fosse contada. Porque um presente muda completamente quando percebemos que alguém dedicou tempo para pensar em nós.

Dias depois ela voltou a me escrever dizendo que o vinho havia agradado muito.

Mas a melhor notícia veio logo em seguida.

O casal ficou encantado ao descobrir que existiam produtores brasileiros trabalhando dessa forma e comentou que faria questão de conhecer outros rótulos da vinícola em uma próxima oportunidade.

Naquele dia eles levaram para casa muito mais do que uma garrafa.

E eu confirmei, mais uma vez, que uma garrafa pode ser uma forma silenciosa de dizer: “Eu pensei em você.”

O Vivino escolhe seus vinhos. O Instagram escolhe seus gostos. E você?

Outro dia fiquei pensando em uma cena que provavelmente também faz parte da sua rotina.

Você está diante da prateleira de uma loja ou recebe a carta de vinhos de um restaurante e, antes mesmo de olhar os rótulos, pega o celular. Alguns abrem o Vivino. Outros procuram aquela indicação salva no Instagram. Há ainda quem mande uma mensagem para um amigo perguntando: “Qual você compraria?”. 

Não vejo problema nenhum nisso.

Consulto referências, provo vinhos indicados por colegas que admiro e continuo aprendendo diariamente com produtores e pesquisadores. O problema nunca foi buscar informação. O risco aparece quando deixamos de usá-la para ampliar nosso repertório e passamos a esperar que ela escolha por nós.

É exatamente aí que a tecnologia encontre seu limite. Ela consegue comparar milhares de avaliações, mas continua incapaz de conhecer as pessoas que estarão sentadas à sua mesa.

Nenhum aplicativo saberia que aquele casal gosta de cozinhar aos domingos, valoriza descobrir pequenos produtores e encontra muito mais prazer em uma boa conversa do que em um rótulo famoso.

A cultura do vinho nunca tratou apenas de garrafas.

Quanto mais caminho por esse universo, mais percebo que meu trabalho nunca foi dizer às pessoas o que elas deveriam beber. Meu trabalho é ajudá-las a desenvolver repertório suficiente para que, um dia, já não precisem perguntar.

Naquela conversa comecei a entender o que realmente significa desenvolver repertório. Não era decorar países, safras ou variedades de uva. Era perceber que uma mesma garrafa poderia emocionar um casal e passar completamente despercebida em outra mesa.

O vinho continuava sendo o mesmo. Quem mudava era o contexto.

Desde então passei a acreditar que aprender sobre vinho fosse apenas aprender sobre vinho. Sempre me pareceu um exercício de observação. Das pessoas, das conversas e, muitas vezes, de nós mesmos.

O vinho que inspirou esta conversa

É o Shaar Adonay Chardonnay, da Lídio Carraro.

Produzido dentro da filosofia da Viticultura Purista, ele nasce do compromisso de expressar a identidade da uva e do terroir com o mínimo de interferência possível. Por isso não passa por barricas de carvalho. A intenção nunca foi retirar complexidade do vinho, mas permitir que sua personalidade aparecesse de forma mais íntegra.

Na taça revela aromas elegantes de frutas de polpa branca, frutas cítricas maduras, delicadas notas florais e um discreto toque mineral. Em boca apresenta excelente equilíbrio entre frescor, textura e persistência, características que fazem dele um Chardonnay extremamente gastronômico e muito versátil à mesa.

É justamente esse equilíbrio que faz com que eu o indique com frequência para pessoas apaixonadas por gastronomia. Harmoniza com peixes, frutos do mar, aves, massas de molhos delicados, risotos e grande parte dos pratos encontrados em bons restaurantes. Não disputa protagonismo com a comida. Pelo contrário. Constrói a refeição junto com ela.

Talvez seja essa elegância silenciosa que me faça pensar nesse Chardonnay sempre que encontro pessoas mais interessadas na experiência do que na aparência.

É um vinho que não tenta impressionar à primeira taça. Prefere permanecer na memória. E, olhando para a história que deu origem a este artigo, acho difícil imaginar uma garrafa que representasse melhor aquela conversa.

 

Talvez o vinho nunca tenha sido apenas sobre vinho.

Se você chegou até aqui, provavelmente já percebeu que este blog continuará falando sobre produtores, viagens, harmonizações e boas garrafas. Mas, cada vez mais, quero conversar sobre aquilo que a cultura do vinho desperta em nós.

Se essa conversa fez sentido, continue por aqui. Descubra seu  Perfil de Provador. Um ponto de partida para construir seu próprio repertório, sem depender de aplicativos ou indicações prontas.

No ecossistema Vinho, Saber Beber, essa conversa continua através dos artigos, do Clube do Vinho, da prática de Mindfulwine e da Mentoria O Código do Vinho, uma jornada criada para quem deseja desenvolver presença, critério, confiança e uma nova forma de viver a cultura do vinho.

Hoje penso que uma boa garrafa nunca foi o destino. Ela sempre foi uma boa desculpa para começar uma conversa.

 

Melissa Leite

Hoje o Mindfulwine está presente em tudo o que desenvolvo dentro do ecossistema Vinho, Saber Beber.

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