Uma sommelière, uma consultora gastronômica e uma cozinha. Os bastidores de uma nova série sobre jantar saudável, Dieta Mediterrânea, vinhos, harmonização e a arte de fazer boas escolhas.
Talvez tenhamos complicado demais a ideia de viver bem.
Há alguns meses, quando Julia Medeiros e eu começamos a conversar sobre a possibilidade de gravarmos juntas, não pensamos imediatamente em uma série de receitas. Também não queríamos colocar uma sommelière de um lado da bancada falando sobre vinhos e uma consultora gastronômica do outro ensinando o passo a passo de um prato. Para isso já existe muito conteúdo bom na internet.
O que nos aproximava era outra coisa: nós duas passamos anos vivendo na Europa, temos Barcelona como parte importante da nossa história e, por caminhos profissionais diferentes, chegamos a uma conclusão parecida sobre o prazer de comer e beber bem. Ele pode ser simples, saudável e possível no cotidiano, sem transformar a cozinha em laboratório, a harmonização em prova de conhecimento ou uma boa garrafa em objeto de ostentação.
Julia construiu uma trajetória de mais de vinte anos na gastronomia e hoje trabalha especialmente com alimentação funcional, saudável e cozinha mediterrânea. Eu cheguei a essa mesma mesa por outro caminho.
Depois de anos estudando vinho, visitando regiões produtoras e trabalhando como sommelière, comecei a me interessar cada vez mais por aquilo que acontece ao redor da garrafa. A comida, as pessoas, o tempo dedicado à refeição, a conversa e as escolhas que transformam algo cotidiano em uma experiência. Em algum momento surgiu uma pergunta inevitável: e se juntássemos tudo isso em uma cozinha?
Foi assim que nasceu Seja o Chefe da Sua Própria Cozinha, uma série que começa agora no meu canal do YouTube e que reúne receitas, comida saudável, vinhos, harmonização, Dieta Mediterrânea, Zonas Azuis, rituais e muitas das histórias que Julia e eu trouxemos dos anos vividos na Europa.
Não queremos ensinar apenas o que colocar no prato ou na taça. Queremos conversar sobre o que acontece quando começamos a prestar mais atenção às escolhas que repetimos todos os dias.
Antes da comida chegar à mesa, muita coisa aconteceu
Quem assiste a um vídeo pronto no YouTube dificilmente imagina a quantidade de coisas que precisam acontecer para alguns minutos parecerem simples na tela. E confesso uma coisa: este primeiro episódio, de longe, não é o melhor desta temporada. Digo isso com tranquilidade porque sei o que vocês ainda vão assistir. Como acontece com quase tudo na vida, precisamos de tempo para encontrar nosso ritmo, e a primeira gravação tratou de nos lembrar disso de uma maneira bastante eficiente.
Começamos a filmar em um dia de muito calor e, em pouco tempo, estávamos literalmente derretendo. Decidimos continuar à noite, mas estávamos em uma zona rural e as luzes da gravação resolveram convidar todos os mosquitos das redondezas para participar da série.
Tivemos cortes intermináveis, problemas com o áudio logo no início e uma edição muito mais complicada do que imaginávamos. Enquanto isso, Julia precisava fazer o peixe chegar ao ponto respeitando não apenas o tempo da cozinha, mas também o tempo das câmeras, das repetições e das pausas. Uma receita que seria simples em qualquer jantar ganhou uma variável nova: precisava esperar a gravação.
E existe um detalhe que resume perfeitamente aquele dia. Não temos uma única fotografia do peixe pronto. Depois de horas gravando, filmamos o resultado, cortamos, comemos e seguimos rapidamente para o próximo vídeo porque ainda precisávamos aproveitar o tempo da equipe. Quando percebemos, o prato já não existia. Hoje acho graça. Naquele momento, nem tanto.
O episódio 2 ainda nos reservou uma surpresa: precisou ser regravado. Mas essa história merece outro artigo. O que importa agora é que, entre calor, mosquitos, câmeras, comida, vinho, erros e muitos ajustes, também vivemos momentos incríveis. E hoje, olhando para a temporada pronta, estamos genuinamente satisfeitas com o resultado. A série foi encontrando seu ritmo junto conosco e isso também faz parte da história que vocês verão nas próximas semanas.
Uma série sobre comida e vinho que, no fundo, fala sobre escolhas
Os cinco episódios nasceram dessa mistura. Começamos com um peixe assado com legumes para conversar sobre jantar saudável, Zonas Azuis e harmonização de vinhos.
Depois passamos pela comida funcional, pela Dieta Mediterrânea, pelas tapas que imediatamente nos devolvem algumas memórias de Barcelona, pelos rituais à noite e chegamos até a um carré de cordeiro para falar sobre equilíbrio, taninos e sofisticação sem complicação.
Julia olha para os ingredientes, para a alimentação e para a cozinha. Eu olho para a taça, para a harmonização e para a cultura do vinho. E as duas olhamos para a mesa.
Essa última parte é especialmente importante para mim. São cinco episódios sobre comida e vinho, mas nenhuma dessas conversas termina na receita. Cozinhar, escolher uma garrafa, receber alguém em casa ou simplesmente decidir o que colocar à mesa numa quinta-feira comum dizem muito sobre a maneira como estamos vivendo. A filosofia da série acabou cabendo em duas frases muito simples: seja o chefe da sua própria cozinha. Seja o chefe das suas próprias escolhas.
Jantar saudável, vinho e Zonas Azuis: começamos pelo simples
No primeiro episódio começamos justamente pelo que parece mais fácil: um peixe assado com legumes, inspirado na cozinha mediterrânea. Julia traz para a conversa as chamadas Zonas Azuis e uma ideia que me interessa muito mais do que transformar longevidade em uma lista de alimentos permitidos.
Quando observamos algumas dessas culturas, a comida aparece dentro de algo maior: ingredientes simples, refeições compartilhadas, convivência e uma relação menos apressada com o momento de comer.
Na minha taça, a primeira provocação da temporada começa pela harmonização.Durante muito tempo aprendemos que peixe combina com vinho branco, como se bastasse identificar o ingrediente principal para encontrar uma resposta. Mas qual vinho escolher para acompanhar peixe? A resposta começa justamente quando deixamos de olhar apenas para o peixe e observamos o prato inteiro.
O peso, a intensidade, o método de preparo, o azeite, o alho, os legumes e os temperos também participam da escolha. Quando começamos a observar dessa maneira, deixamos de decorar harmonizações e começamos a compreendê-las. É aí que o conhecimento sobre vinho começa a se transformar em autonomia.
Os vinhos utilizados ao longo da temporada foram selecionados em parceria com a Brix Wines, e vocês conhecerão diferentes rótulos durante os episódios. Mais do que simplesmente mostrar as garrafas, quero explicar por que cada uma chegou àquela receita, o que encontramos na taça e como pensamos a harmonização.
Porque escolher um vinho também pode ser um exercício de repertório, e não apenas a repetição de uma indicação.
Agora, a cozinha está aberta
Este primeiro episódio inaugura uma temporada que nos deu muito mais trabalho do que imaginávamos e, justamente por isso, também nos deu muitas histórias para contar. Algumas estão nos vídeos. Outras aparecerão aqui no blog, acompanhando os próximos episódios e ampliando conversas que não cabem em alguns minutos de YouTube.
Meu convite nesta semana é simples: assista ao primeiro episódio de Seja o Chefe da Sua Própria Cozinha. Se essa maneira de conversar sobre comida, vinho e escolhas também fizer sentido para você, inscreva-se no canal e me conte nos comentários o que mais chamou sua atenção. Quero saber o que vocês desejam levar dessa cozinha para a própria mesa.
Nas próximas semanas, Julia e eu continuaremos entre receitas que dão água na boca, vinhos, harmonizações e algumas histórias dos anos que vivemos na Europa. Também vamos mostrar que alimentação saudável não precisa significar uma vida sem prazer e que conhecer mais sobre vinho não deveria servir para complicar uma refeição. Deveria fazer exatamente o contrário.
Seja o Chefe da Sua Própria Cozinha nasceu dentro de uma cozinha, mas nunca foi apenas sobre aprender a cozinhar.
É sobre aprender a escolher.
E, depois de tudo o que vivemos para colocar essa temporada no ar, continuo pensando na frase que abriu esta conversa:
Talvez tenhamos complicado demais a ideia de viver bem.
Continue essa conversa
Melissa Leite
Hoje o Mindfulwine está presente em tudo o que desenvolvo dentro do ecossistema Vinho, Saber Beber.

