Muita gente bebe vinho há anos. Poucas pessoas realmente aprendem com ele

Essa conversa precisava acontecer.

Porque existe uma diferença enorme entre consumir vinho e desenvolver repertório cultural.

E não estou falando de decorar regiões, safras, nomes difíceis ou repetir frases que alguém ouviu em uma degustação e achou elegante guardar para o próximo jantar.

Estou falando de algo muito mais raro: percepção.

Ao longo dos anos, observando pessoas em mesas, cursos, encontros e experiências com vinho, comecei a perceber um padrão curioso. Algumas evoluem rapidamente. Em pouco tempo passam a escolher melhor, conversar com mais naturalidade e encontrar prazer em detalhes que antes pareciam invisíveis.

Outras bebem vinho há décadas, frequentam bons restaurantes, viajam para lugares incríveis, compram garrafas cada vez mais caras e, ainda assim, continuam inseguras diante de uma carta de vinhos ou dependentes da opinião de alguém para decidir o que beber.

Isso acontece porque experiência, por si só, não produz repertório. Visitar um museu não transforma alguém em artista. Viajar não transforma automaticamente alguém em uma pessoa culta. Frequentar bons restaurantes não garante sensibilidade gastronômica.

O que transforma uma experiência em repertório é a atenção que dedicamos a ela, a curiosidade que nos move a fazer perguntas e a capacidade de observar mais do que consumir.

Chega um momento em que o vinho deixa de ser apenas bebida e passa a funcionar como linguagem.

Uma forma de compreender lugares, pessoas, histórias, escolhas e até a nós mesmos. Talvez por isso eu acredite que aprender sobre vinho nunca foi apenas sobre vinho. Sempre foi sobre ampliar percepção.

Se preço fosse conhecimento, todo milionário seria sommelier

Pode parecer uma provocação, mas eu gosto dela justamente porque toca em um ponto delicado.

Existe uma crença silenciosa no mundo do vinho de que o valor da garrafa garante sofisticação. Como se comprar caro fosse suficiente para saber escolher. Como se ter uma adega bonita fosse o mesmo que ter repertório. Como se pedir um rótulo famoso resolvesse a insegurança de não saber o que está fazendo.

Não resolve.

Se preço fosse conhecimento, todo milionário seria sommelier. E todos nós sabemos que não é assim. Há pessoas que bebem vinhos caros sem conseguir dizer por que gostam deles.

E há pessoas que escolhem vinhos simples com uma precisão encantadora, porque sabem ler o momento, a mesa, a comida, a companhia e a própria intenção.

Esse é o ponto: vinho bom não é apenas vinho caro. Vinho bem escolhido é vinho com contexto.

E contexto não se compra. Se constrói.

O dia em que um Malbec deixou de ser apenas um Malbec

No último encontro presencial que conduzi, com prática de Mindfulwine, escolhi trabalhar com um Malbec. Sim, o mais conhecido, familiar e aparentemente comum dos Malbecs, daqueles que muitos brasileiros já provaram em algum momento da vida.

Ao apresentar o vinho, comecei pelo caminho esperado. Falei da origem da uva em Cahors, na França, onde os vinhos nasceram para acompanhar a comida local. Depois seguimos sua travessia pela América do Sul, sua relação quase natural com os cortes de carne argentinos e a forma como, na Argentina, essa variedade ganhou uma expressão tão própria que acabou conquistando o mundo.

Até aqui, poderíamos ter ficado no lugar seguro da informação. Origem, região, uva, estilo, harmonização. Tudo correto, tudo útil, tudo dentro do que se espera de uma conversa sobre vinho.

Mas aquele encontro era com mulheres. E quando a mesa é ocupada por mulheres dispostas a conversar com presença, o vinho raramente fica preso à ficha técnica.

A Malbec começou a nos oferecer outra pergunta: será que uma variedade encontra sua melhor versão permanecendo apenas onde nasceu, protegida pela tradição, ou justamente quando atravessa fronteiras, enfrenta novos solos e descobre outras formas de se expressar?

A partir daí, o vinho deixou de ser apenas vinho. Virou metáfora de vida. Falamos sobre identidade, coragem, deslocamento, crescimento e expressão pessoal.

Falamos sobre sair de um lugar conhecido sem perder a essência. Falamos sobre a possibilidade de amadurecer em outros territórios, sem pedir licença para florescer.

E foi ali que a prática de Mindfulwine fez sentido de forma muito clara. O vinho estava na taça, mas a experiência estava em tudo ao redor. Na história, na conversa, na percepção, no modo como cada mulher encontrava naquele Malbec uma imagem possível da própria trajetória.

Isso é repertório.

Não é repetir que Malbec combina com carne. Isso muita gente já sabe.

Repertório é perceber que uma uva pode abrir uma conversa sobre pertencimento, mudança e potência.

O que faz alguém evoluir no vinho

Algumas pessoas evoluem rapidamente porque param de tentar parecer que sabem. Elas começam a observar. E observar muda tudo.

Quando alguém se permite prestar atenção, o vinho deixa de ser uma sequência de informações soltas e começa a formar um mapa interno.

Uma taça lembra uma viagem. Uma textura lembra uma conversa. Uma acidez desperta memória. Uma história de origem ajuda a compreender uma cultura. Uma escolha na carta de vinhos passa a dizer algo sobre o momento, não apenas sobre o orçamento.

É aqui que entra o Mindfulwine, que aplico nos meus encontros, no Clube do Vinho Saber Beber e na mentoria O Código do Vinho. Não se trata apenas de beber devagar, nem de transformar o vinho em exercício técnico.

Trata-se de usar a taça como uma forma de atenção plena, percebendo o vinho, o corpo, a mesa, a companhia e o motivo pelo qual aquela experiência está acontecendo.

Quem aprende assim não acumula apenas informações. Desenvolve critério.

E critério é o que separa quem consome vinho de quem realmente aprende com ele.

Informação ajuda. Repertório transforma.

Eu não tenho nada contra estudar uvas, regiões e estilos. Pelo contrário, isso faz parte do caminho. O problema começa quando a pessoa acredita que informação isolada basta.

Não basta.

Você pode saber que a Malbec nasceu em Cahors e se consagrou na Argentina.

Pode saber que Pinot Noir costuma ser delicada, que Chardonnay muda muito conforme o clima e a vinificação, que espumantes podem acompanhar uma refeição inteira. Tudo isso é conhecimento válido.

Mas, se diante de uma mesa você não sabe escolher com coerência, se depende sempre da validação de alguém, se não consegue transformar aquilo em conversa, presença e experiência, talvez esteja apenas acumulando dados.

Aprender sobre vinho de verdade é outra coisa. É transformar informação em percepção, percepção em repertório e repertório em critério.

Um convite

Se você deseja começar a desenvolver esse olhar, o Clube do Vinho Saber Beber é um espaço mensal onde praticamos Mindfulwine, percepção sensorial e conversas que ampliam a forma como nos relacionamos com o vinho.

Se busca uma transformação mais profunda, a mentoria O Código do Vinho foi criada para quem quer desenvolver Enointeligência, segurança social, presença e critério através do vinho. Não é sobre decorar rótulos. É sobre transformar a forma como você sente, escolhe, conversa e se posiciona.

E se esta conversa despertou sua curiosidade, comece descobrindo seu Perfil de Provador no site.

Porque muita gente bebe vinho há anos.

Poucas pessoas realmente aprendem com ele.

Melissa Leite

Hoje o Mindfulwine está presente em tudo o que desenvolvo dentro do ecossistema Vinho, Saber Beber.

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