Vou te contar uma coisa curiosa sobre mim: eu leio muito, e de estilos bastante diferentes. Dos clássicos da literatura até aqueles livros que o mercado costuma chamar, com certa pressa, de autoajuda. Alguns deles, apesar da simplicidade aparente, acabam trazendo ideias que permanecem ecoando por muito tempo.
Esses dias mesmo eu estava relendo Os Segredos da Mente Milionária, de T. Harv Eker. Volto a esse livro de tempos em tempos porque gosto de revisitar uma ideia que ele desenvolve com bastante clareza: grande parte da nossa relação com o dinheiro nasce das frases que ouvimos durante a infância. Comentários aparentemente inocentes, repetidos por pais, professores ou familiares, acabam formando um pequeno sistema de crenças que acompanha a pessoa por toda a vida.
Enquanto relia essas páginas, me peguei pensando em algo que raramente discutimos: e se esse mesmo mecanismo também moldasse a forma como tantas pessoas se relacionam com o vinho?
A pergunta pode parecer inusitada, mas pense um pouco.
O que você ouvia sobre vinho quando era criança?
Talvez frases como:
“Vinho é coisa de rico.”
“Vinho bom é vinho caro.”
“Eu não entendo nada de vinho.”
“Você bebe vinho? Nossa, que chique.”
“Não gosto de vinho.”
Nenhuma criança presta muita atenção nessas conversas. A mente infantil está ocupada demais com brincadeiras, escola, amigos e um universo inteiro que ainda está sendo descoberto. Ainda assim, algo acontece. As frases entram e permanecem ali, silenciosamente guardadas.
Muitas vezes, nossa relação com o vinho começa antes mesmo do primeiro gole.
O condicionamento verbal que molda nossas escolhas
No livro, Eker chama isso de condicionamento verbal. Em um dos trechos ele afirma com bastante precisão: “O condicionamento verbal é extremamente poderoso.”
Segundo ele, aquilo que ouvimos repetidamente constrói uma espécie de mapa interno que guia nossas decisões no futuro. No caso do dinheiro, isso explica por que algumas pessoas se sentem naturalmente confortáveis lidando com riqueza enquanto outras vivem em permanente tensão financeira.
Quando comecei a pensar nisso aplicado ao vinho, percebi que algo muito parecido acontece.
Muitas pessoas não cresceram em ambientes onde o vinho fazia parte da vida cotidiana. Ele aparecia como algo distante, sofisticado demais ou simplesmente inacessível. Aos poucos, a bebida deixou de ser percebida como algo simples ( um alimento cultural presente em tantas mesas ao redor do mundo) e passou a carregar um certo peso simbólico.
Eu mesma me identifico bastante com essa história. Sou brasileira, nascida e criada entre mares e montanhas, e o vinho não fazia parte da rotina da minha família. Aprendi a beber vinho já adulta, durante a faculdade de Direito.
Por isso sempre faço questão de lembrar que minha trajetória não é a mesma de quem cresceu na Europa ou no sul do Brasil, entre vinhedos e mesas onde o vinho já fazia parte da vida. E eu vi isso claramente nos 7 anos que morei na Europa.
Para muitos brasileiros, vinho nunca foi hábito.
Foi território desconhecido.
E tudo aquilo que permanece desconhecido tende a provocar um certo desconforto.
A geração Ayrton Senna e o espumante da vitória
Existe ainda um detalhe cultural curioso para quem cresceu no Brasil nos anos 80 e 90 , que é a chamada “geração Ayrton Senna”.
Para nós, o espumante ficou profundamente associado a um único momento: VITÓRIA. A imagem é clássica: Senna no pódio, levantando o troféu e estourando a garrafa enquanto o espumante voava pelo ar.
Aquilo se transformou em símbolo absoluto de celebração.
Sem perceber, muita gente cresceu associando o vinho (especialmente o espumante) a algo raro, reservado apenas para momentos extraordinários. Como se ele pertencesse apenas às grandes conquistas da vida.
Quando, na verdade, ele sempre esteve muito mais próximo da vida comum.
Mas acredite em mim, qualquer dia desses abra um espumante em um almoço gostoso, desses sem pressa de acabar. Sem cerimônia, sem ocasião especial. Talvez você descubra algo interessante: quando o vinho sai do pedestal, ele se torna muito mais natural à mesa.
Às vezes a verdadeira celebração não acontece no pódio.
Acontece quando percebemos que a vida também pode ser brindada nos dias comuns.
Por que informação não cura a insegurança
Ao longo dos anos, observando mesas de restaurantes e encontros sociais, comecei a perceber uma situação que se repete com frequência.
Pessoas extremamente inteligentes ( não só, mas muitos médicos, advogados, executivos, empresários) travam diante de uma carta de vinhos. Não sabem o que pedir, sentem medo de errar ou preferem delegar a escolha a alguém da mesa.
Isso acontece mesmo quando essas pessoas são absolutamente seguras em suas áreas profissionais.
A carta de vinhos, para muita gente, não é apenas um cardápio.
É um pequeno teste social.
E insegurança social raramente se resolve apenas com informação.
Ler sobre vinho ajuda. Estudar ajuda. Mas segurança nasce de outra coisa: da experiência, da convivência e da possibilidade de falar sobre vinho sem aquela sensação de que alguém está sendo avaliado.
Quando o vinho se transforma em um teste de conhecimento, ele perde aquilo que tem de mais interessante, a sua capacidade de aproximar pessoas.
Quando o vinho volta a ser conversa
Foi justamente observando esse comportamento que comecei a olhar para o vinho de outra forma. Menos como um objeto de estudo técnico e mais como um espaço de encontro.
Quando o vinho aparece em uma mesa onde existe curiosidade verdadeira, algo muda. As pessoas começam a falar de histórias, de viagens, de sabores que lembram momentos da vida. Comentam descobertas, compartilham impressões e percebem que o vinho é muito mais interessante quando deixa de ser um símbolo de status e volta a ser uma linguagem de convivência.
Em muitas culturas do mundo, aliás, sempre foi assim. O vinho nunca foi um exame de conhecimento. Sempre foi, antes de tudo, um facilitador de conversa.
Um lugar para treinar esse tipo de conversa
Foi observando essas situações que nasceu o Clube do Vinho, Saber Beber.
Um encontro mensal onde pessoas que apreciam vinho, e principalmente boas conversas, se reúnem para desenvolver aquilo que chamo de Enointeligência, a inteligência sensorial aplicada às escolhas.
No clube, o objetivo não é decorar uvas ou impressionar alguém com termos técnicos. O foco está em desenvolver percepção, presença e segurança à mesa. E quando essas três coisas aparecem, algo muda naturalmente: as escolhas ficam mais claras, as conversas se tornam mais interessantes e o vinho passa a ocupar um lugar muito mais simples e verdadeiro na vida.
Segurança à mesa não nasce apenas da teoria.
Ela nasce da convivência.
Um valor que não se mede em números
Talvez isso não tenha exatamente a ver com “mente milionária”, como propõe Eker. Mas tem a ver com outro tipo de riqueza, uma riqueza que não se mede em números.
A riqueza de saber se posicionar em uma mesa. De participar de uma conversa sem medo. De escolher um vinho com naturalidade. De perceber que uma taça pode abrir portas para histórias, encontros e amizades que antes nem imaginávamos.
Às vezes isso aproxima você de um bom cliente. Outras vezes aproxima de um bom amigo.
E muitas vezes aproxima você de algo ainda mais importante: de você mesmo.
Um convite
Se você sente que ainda existe uma certa insegurança ao escolher vinho, saiba que isso é muito mais comum do que parece, e que essa segurança não nasce apenas do estudo.
Ela nasce da experiência.
Se fizer sentido desenvolver essa relação com o vinho de forma mais natural, o Clube do Vinho Saber Beber é um espaço onde essas conversas começam a acontecer.
Você pode conhecer o próximo encontro CLICANDO AQUI.
Talvez o vinho nunca tenha sido complicado. Talvez apenas tenhamos aprendido a olhar para ele com filtros que não eram nossos.
E às vezes tudo o que precisamos é mudar o ambiente, e a companhia, para perceber isso.
E, se fizer sentido, explore os conteúdos e programas do ecossistema Vinho, Saber Beber diretamente no site.
Porque o vinho é a lente.
Você é o foco.

