Viña Villard (Vale de Casablanca): quando o terroir chileno encontra a precisão francesa

A vinícola que me recebeu em festa (e me lembrou por que o vinho importa)

Eu cheguei à Viña Villard no Dia do Vinho Chileno. E não era “evento para turista ver”. Era festa de verdade — daquelas que têm risos de quem trabalha a terra, taças erguidas com orgulho e um tipo de alegria silenciosa que só quem vive a vinha entende.

O que me tocou ali não foi só o cenário bonito (Casablanca tem esse poder de luz e vento). Foi perceber, com o coração bem aberto, o quanto o vinho é identidade para quem produz. E o quanto ele também é missão para mim: eu trabalho imersa e educando sobre essa bebida há tantos anos que, às vezes, a gente corre o risco de esquecer o essencial. Aquela festa me devolveu isso: vinho não é “produto”. Vinho é pertencimento.

E é curioso: eu não precisava de mais uma vinícola para “somar no currículo”. Já vi dezenas de regiões vinícolas pelo mundo. Mas eu precisava — como pessoa e como profissional — ser lembrada do que realmente sustenta uma grande experiência: gente, cultura, cuidado e intenção.

Quando a experiència é tão importante quanto o vinho

Foi aí que entrou a Alejandra Gutiérrez — sommelier e especialista em enoturismo — que nos recebeu e conduziu a experiência com um raro equilíbrio: técnica na medida certa, mas sem roubar a cena do que importa.

Ela não apenas contou a história da vinícola. Ela nos fez sentir essa história. Nos mostrou como a paixão da família francesa não está num discurso ensaiado, mas no jeito como a vinícola foi construída: com precisão, com identidade e com aquele rigor elegante que não precisa provar nada para ninguém.

E é aqui que uma chave se revela: enoturismo não é passeio. É direção. 

Quando a pessoa que te guia sabe criar o ritmo, o vinho deixa de ser “degustação” e vira experiência. E a Alejandra conduziu como quem entende que cada etapa do encontro com o vinho é também uma etapa do encontro com você mesma.

A família francesa e a decisão de criar raízes no Chile

A Villard tem essa beleza que eu chamo de “raízes com sotaque”: uma família francesa que escolhe o Chile, e mais do que isso — escolhe Casablanca, com seu frescor, suas manhãs frias e um terroir que pede precisão.

Você percebe que não se trata apenas de produzir vinho “bem feito”. Trata-se de produzir vinho como expressão de uma filosofia: o terroir chileno com mentalidade francesa. O que nasce daí é um estilo de casa: vinhos que valorizam clareza, estrutura, frescor — e uma elegância que não grita.

E quando a história é contada no lugar certo — com os vinhedos ao redor, com a taça na mão e com uma guia que sabe te manter presente — ela deixa de ser informação e vira contexto.

Provar no terroir é viver a essência do vinho

Eu sempre digo: provar um vinho fora do seu lugar de origem é como ouvir uma música boa pelo celular. Provar no terroir é ouvir ao vivo. Você entende a intenção, a energia, o silêncio entre as notas.

Na Villard, isso ficou ainda mais evidente porque a experiência foi além do vinho. Ela foi desenhada como uma conversa entre taça e boca — uma degustação conduzida com bocados (pequenas porções) que não estavam ali para “encher a mesa”, mas para completar o que cada vinho queria dizer.

E aqui eu quero destacar: eu não falo de harmonização como regra, “faça isso com aquilo”. Eu falo de harmonização como momento. Como estado. Como aquela combinação que não é só de sabor — é de presença.

Porque, no fundo, o melhor do mundo do vinho não é a uva nem a nota aromática. O melhor do mundo do vinho são as harmonizações e os momentos, com vinhos, que nos completam. E isso só acontece quando existe repertório e, principalmente, intenção.

Charlie Villard: a sensibilidade de quem entende natureza

Eu tive o prazer de conhecer os proprietários — os franceses — e parabenizar o Jean-Charles “Charlie” Villard pela sensibilidade que aparece nos vinhos.

E aqui entra uma imagem que me parece perfeita: ele é surfista. E quem surfa, aprende cedo uma coisa que pouca gente leva para a vida: você não controla o mar. Você lê o mar. Você respeita o mar. Você entra no tempo certo. Você entende que cada onda é uma expressão única.

O vinho é assim também.

O surfista sabe que natureza não aceita pressa. E o produtor sensível entende o mesmo sobre o vinhedo: há técnica, sim. Mas existe algo acima da técnica — existe escuta.

Talvez por isso os vinhos tenham esse tipo de precisão que não é rígida. É precisa porque é viva. Porque aceita a variação do clima, do ano, do vento — e transforma isso em identidade.

E eu adoro quando uma vinícola consegue fazer isso sem teatralidade. Sem parecer “marketing”. Apenas sendo verdadeira.

O que essa experiência me ensinou (e pode te ensinar também)

Se eu tivesse que resumir a Villard numa frase, seria: sofisticação é quando tudo está preparado — e mesmo assim, nada parece forçado.

  • O ambiente está pronto para te receber.
  • O atendimento é técnico, mas humano.
  • A comida não tenta competir com o vinho: ela conversa.
  • A história não é palestra: é narrativa.
  • E o vinho não é protagonista sozinho: ele é parte de um todo.

Isso é enoturismo de alto padrão. Do tipo executivo mesmo: eficiência elegante, cuidado nos detalhes, e uma sensação de “eu fui bem recebida” que permanece.

E aqui vai um exercício simples (do seu jeito, sem jargão) para quem quer viver esse tipo de experiência com mais presença:

Exercício prático: “3 pausas antes da primeira taça”

  1. Olhe ao redor (10 segundos): o que o lugar está dizendo sem palavras?
  2. Cheire o ar (sim, o ar): vento, umidade, terra, madeira. O terroir começa aí.
  3. Defina a intenção: “Hoje eu quero estar presente.” Só isso.

Você vai se surpreender como isso muda o seu paladar — e, principalmente, a sua memória.

Um convite para ver (porque vídeo mostra o invisível)

Eu gravei o vídeo completo dessa experiência — e tem um detalhe que eu faço questão de destacar: a experiência de produzir vinhos em ânforas de vidro. No vídeo eu explico o que o Charlie anda fazendo com algumas ânforas diferentes na sala de barricas, e não é “segredo” de enologia, e sim  expressão de criatividade..

🎥 Assista ao vídeo completo CLICANDO ABAIXO:

E se você quiser viver isso com curadoria

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