No domingo à noite eu estava em uma pizzaria de bairro com meu marido, dessas que parecem simples por fora, mas que sempre guardam pequenas histórias acontecendo ao mesmo tempo. Enquanto esperávamos nosso pedido, meu olhar se perdeu nas mesas ao redor, por um hábito muito meu de gostar de observar gente.
Logo deparei com ela e, mesmo sabendo que era um pouco deselegante, não pude deixar de observar seus movimentos e bisbilhotar uma frase ou outra da conversa que se desenrolava. (dessas que as mesas juntas não nos deixam fugir da situação, rs)
Uma mulher sentada sozinha, com os olhos fixos no celular.
À primeira vista parecia distraída, como tantas pessoas hoje em dia. Mas olhando um pouco melhor percebia-se que não havia distração ali. Ela rolava o feed quase mecanicamente, como quem passa páginas sem realmente ler.
Penso que nem era distração, pois ela não via nada. Apenas esperava.
Aquela espera começou com um copo de água mineral, o que já me chamou atenção.
Por que não pede logo algo para comer? Por que não pedir uma bebida? A água parecia ali apenas para marcar o tempo, e sem dúvida uma forma mais educada de aguardar alguém.
E o “alguém” chegou.
E logo o encontro começou antes de qualquer palavra.
Quando a primeira escolha revela quem somos
A mudança mais interessante aconteceu no momento do pedido.
Ela pediu uma taça de vinho.
Ele pediu um chope gelado.
Pode parecer um detalhe irrelevante, mas escolhas raramente são neutras. Elas dizem muito sobre como queremos nos apresentar ao mundo.
O chegar pontual diz algo sobre respeito.
A forma de esperar diz algo sobre intenção.
E a escolha da bebida também comunica algo sobre o ritmo que queremos dar ao encontro.
A cerveja chegou primeiro e terminou rápido.
O vinho permaneceu, mas não entre silêncios.
Entre giradas e “golinhos” na taça a conversa se desenrolava, como se acompanhasse o compasso das palavras e dos olhares.
Foi nesse momento que me dei conta de algo que observo há anos nas mesas onde o vinho aparece:
o vinho não é a bebida do encontro
é a linguagem do encontro
Quando a conversa encontra espaço para existir
As conversas que ouvi de relance eram simples, quase cotidianas.
Ela falava das plantas que cultivava em casa, das jiboias perto da janela que cresciam demais naquele verão. Ele comentava sobre os cachorros e o cansaço das saídas diárias para levá-los à rua.
Nada extraordinário enquanto eu bisbilhotava o encontro deles, na surdina e a espera da minha pizza também.
E pensei que talvez seja exatamente essa simplicidade que torna um primeiro encontro tão interessante.
Já parou para pensar que as coisas que mais fazemos na vida raramente narramos para os outros? Nós simplesmente vivemos. Mas falar delas, quando queremos nos dar a conhecer, também é uma forma de nos reconhecer.
Entre um “eu adoro isso” e um “minha família entende que isso é muito meu”, algo mais profundo acontecia ali. Pequenos pedaços de identidade eram compartilhados naturalmente.
O vinho acompanhava a conversa.
Não como protagonista técnico.
Mas como presença silenciosa.
A cerveja dele acabou novamente, acho que o rapaz estava um pouco nervoso ou só com sede. rs.
O vinho dela continuava ali, molhando a boca que falava, hidratando o olhar e aliviando a alma para cada assunto que surgia.
Passaram entre infância, histórias dos doze anos e voltavam aos trinta e poucos onde estavam naquele momento.
A pizza chegou, a segunda taça de vinho também, e mesmo depois de acabarem de comer e beber o encontro parecia não ter terminado.
A saída tímida na calçada, sem mãos dadas, não condizia com as conversas, ou a linha do tempo de suas vidas que haviam compartilhado.
E percebi que algo havia acontecido ali.
Eles se aproximaram não apenas pelas histórias, mas principalmente pelas escolhas e pelo modo de estar.
Algumas experiências não se explicam. Se vivem.
Enquanto observava aquela cena, não pude deixar de lembrar dos primeiros momentos que vivi com meu marido.
Foi em Barcelona. Até hoje ele diz que o surpreendi quando segurei sua mão ao caminharmos diante da Catedral Metropolitana, no Bairro Gótico.
Entre tapas e vinhos espanhóis, em mesas que pareciam nunca ter pressa de terminar. Conversas que começavam simples e, sem perceber, iam ficando mais profundas.
Uma década depois, ele continua sendo meu melhor companheiro de brindes.
Quando penso nisso com carinho, percebo algo muito claro: não foi apenas sorte.
Foram escolhas.
Escolhas que se alinham com aquilo que realmente habita dentro do coração. Escolhas que, quando feitas com presença, criam histórias que atravessam o tempo.
O vinho como espaço de presença
Talvez seja por isso que eu acredito tanto no vinho como ferramenta de encontro.
Não apenas encontro com outras pessoas, mas também conosco.
O vinho desacelera.
Afina a percepção.
Cria espaço para que conversas verdadeiras aconteçam.
Mas isso não surge por acaso.
Presença também se treina.
Escolhas também se refinam.
E quando pessoas com a mesma disposição se encontram, algo interessante acontece: o vinho deixa de ser informação e se transforma em experiência compartilhada.
Um convite para viver experiências assim
Foi exatamente com esse espírito que criei o Clube do Vinho Saber Beber.
Um encontro mensal onde pessoas que apreciam vinho — e, principalmente, boas conversas — se reúnem para desenvolver aquilo que chamo de Enointeligência: a inteligência sensorial aplicada às escolhas.
Não é um curso para decorar uvas ou regiões.
É um espaço para treinar presença, percepção e troca qualificada. Um lugar onde o vinho abre portas para conversas que realmente fazem sentido.
Se histórias como essa também te fazem pensar sobre suas próprias escolhas, talvez faça sentido viver encontros assim com outras pessoas que estão na mesma jornada.
Algumas experiências não se explicam. Se vivem.
E quando pessoas que buscam esse tipo de encontro se reúnem com regularidade, algo ainda mais interessante acontece.
Você pode conhecer o próximo encontro aqui:
https://melissaleite.com/clube-do-vinho-saber-beber-nova/
Quem sabe sua próxima boa conversa comece exatamente ali.
Porque alguns encontros começam antes da primeira palavra.
E às vezes… começam com uma taça.
E, se fizer sentido, explore os conteúdos e programas do ecossistema Vinho, Saber Beber diretamente no site.
Porque o vinho é a lente.
Você é o foco.

