Por que repetir sempre os mesmos rótulos pode limitar seu repertório e impedir que você aprenda a escolher vinhos com autonomia.
Aconteceu de novo esta semana.
Uma aluna da Mentoria O Código do Vinho me escreveu contando uma situação curiosa. Ela participava de uma mesa de networking quando um dos convidados fez questão de dizer que era um grande apreciador de vinhos. Bastaram poucos minutos para que um único nome passasse a dominar a conversa: Catena Zapata.
Até aí, nada de extraordinário.
O que chamou sua atenção foi outra coisa. Durante toda a conversa o vinho existia apenas como um rótulo famoso. Ninguém falou sobre a ocasião, sobre a comida, sobre o motivo daquela escolha ou sobre aquilo que aquela garrafa entregava na taça. O nome parecia suficiente para sustentar a conversa.
Quando chegou em casa, ela me enviou uma mensagem.
“Melissa, encontrei mais um catenazapatado.”
Confesso que sorri.
Não porque alguém tivesse escolhido um Catena Zapata. Nem um Calicanto. Os dois são bons vinhos e aparecem com frequência nas minhas aulas quando discutimos estilos, regiões, qualidade e harmonização. O problema nunca esteve nesses rótulos.
O que me deixou feliz foi perceber que minha aluna já enxergava algo que antes passaria despercebido. Ela escreveu que, se alguém perguntasse com qual prato aquele vinho harmonizaria ou por que havia sido escolhido, provavelmente a conversa terminaria ali.
Naquele instante tive a certeza de que ela havia desenvolvido uma habilidade muito mais importante do que reconhecer um rótulo famoso.
Ela havia aprendido a observar a escolha.
O maior erro de quem começa a gostar de vinho
Existe uma fase que praticamente todo apreciador de vinho atravessa. Descobrimos uma garrafa que realmente nos agrada, percebemos que ela é bem avaliada, ouvimos outras pessoas elogiando a mesma escolha e, quase sem perceber, passamos a repetir aquele vinho em todas as ocasiões importantes.
É um movimento natural.
O problema aparece quando essa primeira descoberta se transforma no ponto final da jornada.
Na Mentoria costumamos brincar dizendo que algumas pessoas ficam catenazapatadas. Não porque escolheram um vinho ruim, mas porque deixaram de fazer a pergunta que realmente amplia o repertório.
O que ainda não conheço?
Foi essa pergunta que mudou completamente a minha relação com o vinho.
Quando a curiosidade dá lugar à confirmação
Quem acompanha meu trabalho talvez já tenha percebido que raramente falo de rótulos específicos nas redes sociais. Isso é intencional.
Conteúdo aberto precisa simplificar. Já no Clube do Vinho e na Mentoria existe tempo para comparar produtores, entender estilos, discutir harmonizações e compreender por que um vinho faz sentido para determinada pessoa e não apenas para determinada ocasião.
Sem contexto, uma indicação vira apenas uma lista de compras. E acredito que a cultura do vinho mereça muito mais do que isso.
Vivemos um momento extraordinário. Nunca tivemos tantos produtores, tantas regiões, tantos especialistas e tantas informações disponíveis. Ainda assim, vejo muita gente repetindo exatamente o comportamento de vinte anos atrás. Trocaram apenas a fonte da influência. Antes era a opinião do amigo. Hoje é o aplicativo, o influenciador ou a lista dos vinhos mais bem pontuados.
Não vejo problema em consultar o Vivino ou acompanhar bons criadores de conteúdo. O problema começa quando deixamos de usar essas referências para aprender e passamos a esperar que elas escolham por nós.
Repertório não nasce da repetição
Depois de tantos anos estudando vinho, visitando vinícolas e conversando com produtores ao redor do mundo, percebi que as experiências que mais marcaram minha memória raramente nasceram dos vinhos mais famosos.
Nasceram de pequenas descobertas.
Um produtor português escondido entre os areais de frete para o Oceano Atlântico, na região de Colares.
Uma vinícola familiar na Albânia, Sérvia, Bosnia, Eslovênia, Chipre e muitos outros países “diferentes” que conheci.
Um vinho brasileiro que quase nunca aparece nas cartas dos restaurantes.
Foi comparando estilos, histórias e formas de elaborar vinho que meu repertório realmente começou a crescer.
Porque repertório não nasce quando encontramos um grande vinho.
Nasce quando continuamos procurando o próximo.
O vinho desta conversa
Curiosamente, este artigo não termina com uma indicação.
Termina com um convite.
Na próxima vez que entrar em uma loja de vinhos, resista por alguns segundos à vontade de perguntar qual é o melhor rótulo da prateleira.
Experimente fazer uma pergunta diferente.
“Qual foi o vinho que mais surpreendeu você este mês?”
Tenho a impressão de que você voltará para casa com algo muito mais valioso do que uma boa compra.
Voltará com uma história.
E boas histórias costumam permanecer muito mais tempo na memória do que os rótulos que as inspiraram.
Uma pergunta para levar à próxima taça
Qual foi o último vinho que despertou sua curiosidade, em vez de apenas confirmar aquilo que você já conhecia?
Se essa conversa fez sentido para você, continue por aqui.
Todos os meses, no Clube do Vinho, reunimos pessoas que desejam ampliar repertório, descobrir produtores, comparar estilos e conversar sobre vinho sem esnobismo.
E, para quem deseja aprofundar essa jornada, existe a Mentoria O Código do Vinho, onde o vinho continua sendo protagonista da experiência, mas deixa de ser o destino. Ele se transforma em uma linguagem para desenvolver critério, autonomia e uma forma mais consciente de viver.
Porque, no fim das contas, nunca acreditei que aprender sobre vinho fosse apenas aprender sobre vinho.
Sempre acreditei que fosse aprender a escolher melhor.
Conheça o ecossistema:
🍷 Clube do Vinho Saber Beber – encontros mensais para desenvolver repertório e praticar o Mindfulwine.
🍷 Mentoria O Código do Vinho – uma jornada para quem deseja transformar conhecimento em presença, critério e confiança através da cultura do vinho.
🍷 Perfil de Provador – descubra como você se relaciona com o vinho e dê o primeiro passo para construir seu próprio repertório.
Melissa Leite
Hoje o Mindfulwine está presente em tudo o que desenvolvo dentro do ecossistema Vinho, Saber Beber.

