Somos exímios em medir quantidade.
Litros. Garrafas. Caixas. Consumo. Produção.
No universo do vinho — e muito além dele — a litragem sempre pareceu um critério seguro.
Seguro, mas raso. Algo que se conta, se compara, se exibe.
Mas há algo que seguimos sem saber medir: qualidade.
Quantidade se mede.
Qualidade se sente.
Talvez 2026 seja o ano de escolher entre a “litragem” de vinho… ou boas taças de vida.
Quando a litragem começa a nos consumir
No mundo dos vinhos, litragem virou símbolo.
Quanto mais se bebe, mais se prova, mais se fala — melhor.
Mas quando tudo vira excesso, algo essencial se perde.
Perde-se a escuta do corpo.
Perde-se a sutileza do momento.
Perde-se o sentido.
O mesmo ocorre nas conversas, nas relações, na vida profissional.
Muito se fala.
Pouco se sente.
Muito se consome.
Pouco se integra.
Litragem, em excesso, anestesia.
E anestesia nunca foi sinônimo de prazer.
A técnica orienta — mas não decide
É claro que existem análises.
Acidez equilibrada, taninos bem trabalhados, álcool integrado, textura coerente — tecnicamente, são pontos de partida importantes.
Mas qualidade não termina na ficha técnica.
Depois de anos estudando, degustando e acompanhando pessoas em suas escolhas com vinho, percebi que o problema raramente é falta de informação.
É excesso sem presença.
Ela começa quando o vinho encontra o corpo, o momento, o estado emocional de quem prova.
Um vinho impecável no papel pode ser completamente inadequado para aquele dia.
Um vinho simples, mas honesto, pode ser exatamente o que a vida pede.
A técnica aponta caminhos.
O senso humano é o que nos leva mais longe.
O que o gesto com a taça revela
Há algo profundamente revelador no gesto.
Na forma de segurar a taça.
No ritmo do gole.
Na pausa entre um aroma e outro.
A taça nunca é neutra.
Ela denuncia se estamos presentes ou apenas repetindo movimentos aprendidos.
Quando falta cuidado, algo é dado — mas sem intenção.
Quando há presença, até o silêncio comunica.
A mulher que entrou com uma taça na mão
Existem condutas particulares que passam despercebidas, mas impactam o ambiente ao redor.
Ela entrou em um daqueles salões descontraídos, entre risos e conversas sobrepostas, onde todos parecem buscar algum tipo de validação.
Quem é essa mulher de gestos silenciosos, trajes simples, embora bem cuidados, que não toca os outros pelo excesso?
Toca pela escuta.
Sem ostentação.
Sem marcas gritantes.
Trazia em sua companhia uma taça.
Não como quem exibe, mas como quem acompanha um ritmo próprio.
O olhar era presente.
O falar, calmo.
O estar, inteiro.
Ela não brilhava com ouro ou prata — seu traje não insultava a miséria com ostentação —, mas pela forma como se colocava no mundo.
Falava dos lugares por onde passou, dos vinhos que provou, do que aprendeu.
Não para ensinar.
Para compartilhar.
Ora, dispensar cuidados é dar alguma coisa.
Nada soava tóxico.
Nada vulgar.
Nada repetido.
Sua forma de segurar a taça parecia vir do coração, não da necessidade de aprovação.
Havia ali uma sofisticação rara: a de quem sabe viver.
E isso fazia com que todos notassem.
Sem saber exatamente por quê.
Qual é o mérito, afinal?
O mérito não está em impressionar.
Não está em saber mais nomes, mais regiões, mais rótulos.
O mérito está em saber viver e saber compartilhar.
Em não precisar de aprovação para existir.
Em falar a partir do que se sente, não do que se decorou.
Em agregar valor sem ferir, sem competir, sem repetir discursos vazios.
Há quem brilhe pelo ouro e pela prata.
E há quem brilhe pela própria história.
Menos litragem, mais humanidade
Como já dizia Carl Jung:
“Conheça todas as teorias, todas as técnicas,
mas, ao tocar uma alma humana,
seja apenas outra alma humana.”
Este é o meu desejo para 2026.
Que consigamos tocar pessoas.
Que escolhamos mais qualidade e menos litragem.
Que saibamos eleger, todos os dias, boas taças de vida — aquelas que não se medem em quantidade, mas em presença.
Quantidade se mede.
Qualidade se sente.
E, no fim, viver bem nunca foi sobre quanto cabe na taça.
O Código do Vinho
É exatamente desse ponto que nasce O Código do Vinho.
Não como um curso para aprender mais.
Mas como um programa para aprender a sentir melhor.
O Código do Vinho não fala de litragem.
Fala de presença.
De entender por que você escolhe o vinho que escolhe.
De desenvolver critério sem rigidez.
De criar uma linguagem própria — sem jargões decorados.
De transformar a taça em ritual, não em excesso.
É para quem já percebeu que quantidade não resolve.
E sente que está pronto para escolher com mais consciência — no vinho e na vida.
Se 2026 pede menos ruído e mais verdade,
talvez este seja o ano de viver o vinho de dentro para fora.
Conheça O Código do Vinho.
Para sua reflexão (e a minha também)
Na próxima vez que segurar uma taça — de vinho, de conversa, de oportunidade — pergunte-se:
- Estou contando litros ou cultivando momentos?
- Estou repetindo jargões ou compartilhando sensações?
- Estou buscando aprovação ou expressando presença?
- O que, na minha vida hoje, precisa de menos “litragem” e mais “taça bem escolhida”?
Se alguma dessas perguntas tocou um ponto sensível — ou despertou curiosidade sobre como transformar percepção em presença — o autoconhecimento pode começar de forma simples.
👉 Descubra seu perfil sensorial no Quiz de Provador de Vinhos.
O Quiz ajuda você a se reconhecer.
O Código do Vinho aprofunda esse reconhecimento em escolha, linguagem e presença.
Um brinde a um 2026 com menos ruído e mais boas taças de vida.
Melissa Leite

